(62) 3240-0101
NOTÍCIAS

É possível salvar as torcidas organizadas?

28/04/2009 14:21:30

 O gol do atacante Lincoln contra a seleção de Portugal, em 9 de março de 1975, marcaria a trajetória do torcedor Cícero Furtado Leite Júnior. Ao presenciar a atuação do jogador durante a vitória do Goiás Esporte Clube, por 2 a 0, naquele domingo, dia da inauguração do Serra Dourada, em Goiânia, ele selaria sua relação com o seu time. "É um vínculo de coração, não me imagino sem ser torcedor. Quando vou aos jogos sinto muita adrenalina, adrenalina pura! Fica até difícil de explicar", diz o torcedor, que hoje, aos 46 anos, coordena os programas de rádio e site Família Esmeraldina, que acompanha o cotidiano do time.

Mas as arquibancadas dos estádios também são um ambiente propício à rivalidades entre torcidas, que colocam o amor pelo clube acima até mesmo da vida humana. É justamente a relação entre paixão e violência no futebol que tem alimentado uma polêmica no Estado: a extinção da torcidas organizadas. Há três semanas, as Polícias Militar e Civil protocolaram no Ministério Público do Estado de Goiás (MPE) solicitação que pede o fim das agremiações de torcedores. Segundo informações do MPE, o documento está em avaliação na 53ª promotoria e ainda não há posicionamento da instituição.

 
Na semana passada, foi a vez do deputado estadual Luis César Bueno (PT) apresentar um projeto de lei que proíbe a presença de associações fechadas nas dependências do Estádio Serra Dourada. Segundo ele, a proposta, que está na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Assembléia Legislativa, deve ser apreciada ao longo do mês abril. (leia texto nesta página)

O debate ganhou fôlego após o assassinato de três torcedores vilanovenses, no Jardim Curitiba 4, Região Noroeste de Goiânia, no dia 8 de fevereiro, na véspera de um jogo entre Goiás e Vila Nova. Segundo a polícia, dois integrantes da Força Jovem, do Goiás, estariam envolvidos. No dia do crime, Diego Carlos de Almeida, 21, foi preso em flagrante. Outro suspeito, Renato Siqueira Basile, 18, se apresentou à Delegacia de Homicídios no dia seguinte.

Em depoimento, eles negaram envolvimento com o crime. Mas foram indiciados pela polícia, que teve como base informações de testemunhas. No dia 19 de fevereiro, uma nova briga entre torcidas voltaria a fazer vítimas no Bairro Hilda, em Aparecida de Goiânia.

Gangues
Segundo Cícero Furtado, que dedicou mais de 12 anos à torcida organizada do Goiás, a rivalidade entre torcidas é comum. Ele recorda que, enquanto participou da agremiação, não havia estímulos à violência. Mas, em jogos históricos, era sempre indicada precaução a serem tomadas nos estádios. Todavia, ele reconhece que o fenômeno das gangues, que são abrigadas dentro das torcidas organizadas. Segundo a Polícia Militar, trata-se de facções criminosas que usam a torcida para respaldar suas ações.

O argumento da PM para o fim das torcidas organizadas parte do pressuposto de que as agremiações não têm nenhum controle sobre seus associados. "Uma torcida organizada sem controle é um risco para a sociedade", diz o comandante-geral da PM, tenente-coronel Antônio Carlos Elias. Para ilustrar a situação, o coronel conta que, na relação pedida para às torcidas no jogo do dia 9 de fevereiro, cerca de 20% das pessoas que se identificaram tinham algum envolvimento com crimes. "Mas aquilo não era bem um cadastro, pois não englobava todos os integrantes", reforça.

Medidas preventivas
Até que se tenha uma posição mais clara sobre o futuro das torcidas organizadas no Estado, a Polícia Militar tomou algumas medidas preventivas. Foi solicitado ao Poder Judiciário  agilidade no julgamento dos envolvidos, e que seja aplicado o Estatuto do Torcedor, de forma que essas pessoas sejam proibidas de ir ao estádio. A PM alterou as medidas para evitar os confrontos entre torcedores nos estádios. Não será feita a escolta dos torcedores pelas ruas, que serão recebidos já no estádio.

Também houve mudanças nas alas de entrada. Os torcedores do Goiás, que antes entravam pelo lado Norte, passarão somente pelo lado Norte. Com os adversários será o oposto. O que acarretará mudanças nos locais de posicionamento das torcidas dentro do estádio. A medida gerou polêmica entre os torcedores e dirigentes de clubes. Mas, segundo a polícia, a proposta tem como objetivo evitar que as torcidas se esbarrem no estádio.

O presidente do Goiás Esporte Clube, Syd Oliveira, contesta. Para ele, a medida, que será colocada em prática no próximo jogo entre Goiás e seu rival, no dia 8 de março, tende a gerar mais confusão. "A mudança brusca vai acarretar mais descontentamento", diz.

Extinção não resolve, diz especialista
Para o mestre em Educação Brasileira e professor de Educação Física, Marcus Jary Nascimento, a extinção das torcidas organizadas não resolveria o problema da violência entre os torcedores. Isso porque, segundo ele, os estímulos à violência não partem da diretoria das agremiações e, sim, no calor dos jogos nos estádios ou nos contextos que remetem aos jogos. Ele explica que o futebol acaba servindo para a canalização das tensões acumuladas numa sociedade marcada pela repressão e controle da violência. O que coaduna com o elemento psicológico da tensão prazerosa própria dos esportes que atraem a atenção das massas, como o futebol. "O que está lataente em todos os envolvidos no processo,  com a expectativa do gol e da vitória."

O professor afirma que no futebol, a violência simbólica é muito forte. Ele explica que as torcidas acentuam o caráter violento, mas não são elas que criam a violência. "O instinto de violência mora no individuo e mesmo com a repressão não é possível eliminar essa característica. A imprensa mesmo dissemina termos violentos como matador, artilheiro, entre outros", diz.

Segundo Marcus, o desenvolvimento da sociedade explica a necessidade de agrupamentos. "O homem evoluiu a partir da associação em grupos como forma de garantir sua sociabilidade, defesa e satisfação". Fatores que tornam o futebol é um lugar muito vinculado ao primitivo por conta do instinto social que aflora no homem.

Ele reforça que, além disso, o ambiente do estádio polariza grupos, que são divididos em dois. Para o professor Marcus Jary, a redução da violência no futebol passa por uma série de medidas sociais, como a criação de instrumentos de regulação das torcidas como: cadastramento dos associados, identificação dos líderes, trabalho de inteligência das polícias, venda de ingressos diferenciados para os organizado, monitoramento dos pontos nevrálgicos e separação efetiva das torcidas dentro do estádio.

Situação de guerra
O deputado estadual Luis César Bueno (PT), que apresentou projeto de lei que proíbe a presença de associações fechadas nas dependências do Estádio Serra Dourada, afirma que a medida atende à solicitação das polícias e sociedade. Segundo ele, as torcidas organizadas se transformaram em corporações fechadas que provocam danos à sociedade. "Entendemos que os atos de vandalismos destes grupos têm prejudicado às famílias e o patrimônio público do Estado."

Luis César Bueno afirma que seu projeto será um dispositivo legal para proibir ou evitar a presença destes grupos no Estádio Serra Dourada. "Estamos mexendo com crime. Temos que fazer ações para amanhã, é utopia pensar em ações em longo prazo. É uma guerra. Por isso, precisamos de uma ação imediata para evitar que estes torcedores entrem no estádio", entende. A previsão é de que o projeto seja votado em abril. A esfera de atuação é somente o Estádio Serra Dourada porque é o único de responsabilidade do Estado, os demais são vinculados aos municípios.

Segundo o deputado, a seleção dos torcedores será feita através dos cadastros das torcidas e das polícias goianas. Apesar de ter solicitado ao Ministério Público o fim das torcidas, o tenente-coronel e assessor de comunicação da Polícia Militar, Sérgio Katayama, diz que é quase impossível que este projeto seja cumprido. "Neste caso, quem vai assumir que faz parte de uma torcida organizada?"

Componente especial 
Para o presidente do Goiás Esporte Clube, Syd Oliveira, os torcedores do Goiás tem alto valor para a história do time. Contrário à extinção das torcidas organizadas, ele diz que a torcida dá o tom de vibração no estádio e para os jogadores. Para ele, a violência não está relacionada diretamente ao futebol. "Os atos violentos acontecem todos os dias, precisamos de políticas contra a violência para a sociedade como um todo. É necessário investimentos em educação e em canais para que o cidadão expresse seus desejos e ansiedades. Estamos diante de um problema sócio-político", defende.

O coordenador de futebol de outro time da capital goiana, Evandro Gomes Barros Júnior, tem a mesma opinião: "As torcidas são muito importantes porque incentivam o time e consagram a festa do futebol". "O fim das torcidas não acabaria com a violência." Segundo Evandro, as mortes e atentados ocorridos em fevereiro foram problemas pontuais, que não estão no cotidiano das torcidas. "A discussão é válida. O momento é de repensar a organização das torcidas e aprimorar a gestão e cadastro dos torcedores e a atuação das polícias", diz. 

 

Voltar

Home

Twitter
Facebook
Newsletter

Faça o cadastro para receber novidades do escritório e do mundo!

Nome:
E-mail:
Localização

Todos os Direitos Reservados

Fonseca Mauro Monteiro e Advogados Associados S/S © 2013

Programado por:

Layout desenvolvido por: